Contos são narrativas curtas, com um conflito central, em torno do qual se desenvolve a estória. Uma ótima alternativa para quem quer se engajar em um enredo interessante, de leitura rápida e conteúdo que agrega.
O conto a seguir fala do amor de um jovem pela música, permeando valores de família e contextos socioculturais em diferentes gerações. Espero que goste!
Conto “Artilheira“, de Flavia de Assis e Souza
Artilheira
Flavia de Assis e Souza
Na intenção de um mundo melhor, nasceu Raimundo. Filho de Eva e Valadão, o oitavo da linha de doze. Era começo de século XX, comum virem famílias com dois dígitos de prole. Uns nasciam bem, outros não vingavam, outros levavam algumas sequelas, que a vida entortava ou endireitava ao seu próprio veredito ou fado.
Raimundo veio perfeito. Pele, cabelo, órgãos internos, tudo parecia funcionar bem. Encaixou-se na categoria dos primeiros: tudo certo e vingou. Teve uma infância feliz. Aos olhos do século seguinte, poderia parecer que alguns desvios o acometiam, como acometia à dúzia completa de irmãos, os seus, e os demais. Pai duro, mãe omissa e desnivelada, descobrir cada fase sem diálogo. Mas a vida era simples e compensava as mazelas que o desenvolvimento humano pudesse trazer às famílias naqueles tempos. Fosse hoje, mesmas mazelas, a cabeça de um cidadão poderia não concatenar e reproduzira, dia a dia, um mal secreto, interno, incurado, mesmo sem intenção. Pois com vida complexa e tanta articulação dentro e fora do indivíduo, se o seio familiar não traz um mínimo código de bases felizes para os dias de hoje, as sinapses se degeneram.
Mas Raimundo era aquela criança, comum, feliz, dormia cedo, acordava na matina, brincava de carrinho de rolimã, bolinhas de gude improvisadas com pedras da fazenda. E a turma de amigos tinha os irmãos, mesmo os mais velhos, os filhos dos funcionários da fazenda e outros seres de quatro patas que, grandes ou pequenos, eram harmoniosamente integrados à lida pueril.
Raimundo cresceu. Era namorador, com respeito à conduta esperada para um mancebo de valores. Como seu sorriso era largo, de brilho intenso e constante, iluminava seu redor. Por vezes, moçoilas, mesmo discretas, se viam enfeitiçadas e então que Raimundo passou a ser cobiçado, como um rapaz diferenciado, de mais valia.
Para ornar com o sorriso espontâneo e contagiante, comprou sua primeira sanfona. Ter sanfona era como uma banda inteira no século seguinte, com todos os instrumentos e vocal. E Raimundo se especializou. Tornou-se o príncipe da sanfona, sendo convidado certo nas festas das fazendas e das vilas. Ao seu som, os de igual idade, os mais velhos e até os mais novos, dependendo do público das festividades, se embalavam. Sorriso mais acordes, envoltos por uma aura limpa e de luz, eram a tônica da alegria e diversão das celebrações, planejadas ou improvisadas. Raimundo e sua sanfona, por vezes, eram um só; a sanfona, extensão do seu corpo e fiel companheira.
Era feliz ter Raimundo por perto. Raimundo era feliz estando por perto. A sanfona, apelidada de Artilheira, fazia seu time de qualidades emanáveis inteiro entrar em campo. E, como não poderia ser diferente, a Artilheira, nas mãos de Raimundo, cantava e encantava, mundo afora. Mundo aquele, pertinho de Raimundo, que era de uma dimensão pequena, mas infinita.
Sr. Valadão era tosco, precisava deste rótulo para o respeito dentro e fora do lar para que se visse com valor. Na sua limitação, fazia o melhor, mas não tinha alcance de qualidades paternas, além de provedor. Na sua conduta com vieses, e voz de ditador mais que de pai, ordenou a Raimundo que se desfizesse de sua sanfona, não mais suportando a música e alegria invadirem seus ouvidos ou ambientes de direto contato. Era como se Sr. Valadão fosse do time rival, e quisesse aniquilar a Artilheira para fazer a outra equipe sair de campo. Sua vida ordinária sem despontes de celebração e alegrias seria mais controlável, provável e rentável aos poucos exemplos de sentimentos que conhecia. Era como se seu dicionário tivesse vindo com defeito e trouxesse só os termos da sobrevivência, nada mais. Seu mundo era, então, pequeno. Como permitir que a prole fosse além? Isto somente aconteceria em detrimento aos que ele preconizava como necessários para viver e sobreviver. Como se sua calculadora também não somasse ou multiplicasse, só dividisse e subtraísse.
Raimundo, como bom filho e ponderador do que é certo ou errado para um momento da vida, pôs-se diligentemente a buscar uma destinação para a Artilheira. Se ao menos Dona Eva se manifestasse, mas era em vão esperar tamanha proeza. Estava decidido: a Artilheira seria vendida, e o dinheiro guardado para quando fosse constituir sua própria família. O time saiu de campo. Outros esportes e jogadores povoaram rapidamente a rotina e o coração de Raimundo.
Passados alguns anos, Raimundo flertou com uma moçoila mais nova, já conhecida da família. Casou-se cedo, aos moldes de hoje. Até forjou ou forjaram a idade da pretendente, só para socialmente se encaixar um pouco melhor a uma mínima maturidade. E assim Raimundo e a moçoila, de nome boreal e austral, constituíram família.
Vieram os filhos de Raimundo e Aurora. Um por um, quase a cada ano, também seguiram o magnético número da dúzia. Como era de se esperar, alguns vingaram, outros não, outro ficou com sequela. Com amor e coesão, a família de Raimundo crescia. Ele era mais ameno que seu pai, que foi-se cedo, de morte morrida. Trazia mais afeto e sorriso para o lar. Embora ainda sem diálogo profundo, pois que seu tempo não trazia esta luz, já deu um passo em relação à geração dos seus pais. Aurora também acompanhava esta evolução. Era doce, dedicada e um pouco mais opinava. Tanto que, por vezes, verbalizava alguma insegurança pelo carisma de Raimundo, especialmente quando ele, porventura, cruzava com alguma sanfona que ousava dedilhar para relembrar a antiga companheira. Mesmo que fosse por instantes, e em outra sanfona que não fosse a Artilheira, Raimundo e os acordes se fundiam como um só, esvaindo alegria e celebração ao redor.
Por serem raros e erráticos estes encontros entre Raimundo e uma sanfona, deixou de ser sanfoneiro e seguiu o destino em outros moldes. Contudo, a vida sempre trazia uma surpresa, que Raimundo tratava de encarar como passageira e fortuita, para não encher seu coração da alegria que não poderia repetir amanhã.
Assim passaram os anos. A aposentadoria precoce do sanfoneiro de coração deu lugar a outras alegrias: família crescendo, multiplicando-se, filhos vingando na vida. Tudo compensava, afinal. Mesmo sem seu ofício que mais lhe agradava, Raimundo se via agraciado e sorria para a vida.
Naqueles instantes casuais com que cada um se depara um dia, quando uma decisão instantânea muda tudo, Raimundo avistou a Artilheira. “Será? Trinta e dois anos depois? Miragem?” – indagou-se. Sim, era a Artilheira, numa venda remota da vila, nas mãos de um senhor de chapéu, apenas com seu movimento orgânico, sem a alegria das celebrações que as mãos de Raimundo orquestravam no passado. Teria sido ela perpetuada como artigo mercantil apenas?
Raimundo se aproximou do senhor, de maneira discreta e disfarçada sob pouco entusiasmo. Pediu ao senhor da venda que a tocasse, só para ver se ainda estava afiado com o ofício.
O encontro entre Raimundo e a Artilheira foi triunfal. Tocou-a lindamente, como se o ímpeto musical adornasse todas as suas alegrias e sensações. O senhor da venda se espantou com tamanha destreza e, pensando num possível comprador, ficou de espreita, à espera de uma proposta do transeunte. Internamente, já havia feito seus cálculos com um valor baixo, para não desmotivar o potencial comprador se a conversa prolongasse nessa direção. Queria fazer mais dinheiro naquele dia, e aquela pé-de-bode, como se referia à sanfona, havia de lhe trazer um ganho extra não planejado.
O senhor da venda nem imaginava, mas a pé-de-bode carregava uma insígnia talhada na madeira de carvalho, com as iniciais do nome do seu singular companheiro. Era sutil e discreta, visível a olhos atentos que a procurassem, como naqueles fatos da vida que só quem tem olhos no coração encontra.
Em êxtase por dentro, Raimundo conteve a emoção do seu encontro com a velha companheira. Tantas coisas haviam se tornado sua realidade, neste lapso de tempo em que se afastou da Artilheira! Era feliz, sabia disto, pois que a vida lhe trouxe benesses que articulavam sua rotina. Mas resgatar um amor interrompido, que dava vazão a tanto ensejo que Raimundo tinha no seu interior, era um presente incólume. Sua história das décadas de vida veio à mente, como que para validar que seu caminho não poderia mais se distanciar da sua amada, também ferramenta do amor. Sim, a Artilheira haveria de lhe pertencer novamente!
Como bom negociador que era, até se perder nas cifras por sua bondade e, por que não, ingenuidade, ele lançou a pergunta derradeira ao senhor da venda. “O senhor venderia esta sanfona velha? Ainda não sei se a quero, mas estou pensando.” – atacou Raimundo com seu tiro de mestre. O senhor da venda, temeroso que aquele momento tivesse sido em vão, rapidamente se posicionou com um preço baixo, refletindo em pensamento um dito popular: “Mais vale um passarinho na mão que dois voando.”
Nota promissória compensada na outra semana e a pé-de-bode voltou a ser a Artilheira. Um hiato de tempo se fundiu à nova segunda fase da vida de Raimundo. Sua amada estava novamente ao seu lado, coroando tantos presentes que a vida lhe deu até ali.
Diz a lenda, e os relatos dos que foram envolvidos pela Artilheira, que ela teve vida longa. Acompanhou Raimundo até seus últimos dias. E depois continuou, armazenando nas suas dobras a memória das gentes, da alegria, do Raimundo, e da sua história. Quantos anos teria a Artilheira? Haveria de encontrar novamente sua metade? Em algum lugar, passado ou futuro, talvez sim. Mas no presente não. Pois que sanfona já não toca mais os novos corações, acometidos pela tecnologia da vida e da arte. Fica como uma relíquia, em um armário qualquer. E para quem tem sede de história e se embala na magia, e só mirá-la que a viagem começa.
Jaz Raimundo, jaz a Artilheira. Mas fica a sanfona, qual marco de um tempo. E de tantos sentimentos que seu som ecoou.
.

