Dotada de beleza ímpar, a primavera faz as flores brotarem e, se assim o permitirmos, novas perspectivas de vida também podem brotar, ornando com a estação que floresce belezas.
Poema “O dia em que dei chance às orquídeas“, de Flavia de Assis e Souza
Encostado em uma mesa da área externa
Aquele vaso lindo, de porte exuberante, viveu
Um dia me dei conta que não conseguia que sua flor fosse eterna
E, por um gesto ingrato, sob meu veredito, seu conteúdo morreu
.
Pra limpar os espaços e trazer nova energia
Sem titubear, depositei a planta que o ornara no lixo
Quando veio a flor majestosa no domicílio a luz reluzia
Mas, ao caírem as pétalas, afugentei-a como se fosse um bicho
.
Como que naquelas leis implacáveis de atração do universo
Para repor a flor moribunda, veio outra de mesmo estilo
Não sabia que julgaria a sua futura morte um infortúnio perverso
Fechado o ciclo, vaso sem tom florido, descartei o conteúdo sem vacilo
.
Certa feita deixei de prestar atenção às intempéries do vaso
Num dia qualquer, atraída por uma fragrância incomum, fui checar o que passou
Ali à espreita já reluziam brotos da orquídea ao acaso
Uma onda de paz e de entendimento da vida me dominou
.
A cada ano, por coincidência, primavera, que eu sequer antes percebia
O vaso generoso, depois de um tempo em repouso, trazia flor
Pelas outras estações na lida da vida se adormecia
Pra chegar retumbante e, com dom cativante, a flor magnífica ao mundo dar cor
.
Em hastes diferentes, mas da mesma raiz, sempre com primazia
A perene presença da cíclica orquídea nunca mais fugiu
Escolhi outros vasos e também outras flores para aprender a magia
Que a vida se encarrega de nos endireitar quando o enviesado coração se abriu
.
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